sexta-feira, 11 de maio de 2018

O que o amor faria agora?


Alessandro Lo-Bianco - Quando vivemos pensando sempre no que seria melhor para gente, do ponto de vista de vantagem máxima, o verdadeiro benefício da vida é perdido. A oportunidade e a chance são perdidas. Porque a vida assim é uma vida com medo. E essa vida conta sempre uma mentira a seu respeito. Porque não somos medo. Somos amor. Amor que não precisa de proteção, que não pode ser perdido. Contudo, nunca saberemos disso enquanto pensar sempre que existe algo a ganhar ou perder na hora de fazer nossas escolhas. Lá na frente, certamente, a felicidade nos relacionamentos estará para os casais que entenderam que não se tratava de ganhar ou perder, mas apenas apaixonar-se e ser amado. Quem vive mensurando - dentro de um relacionamento - o que o outro tem a oferecer, é como se fosse a mesma pessoa que afirma ser tão somente o seu corpo. Já quem vive um relacionamento sem este interesse mensurável é também - como se fosse - a pessoa que afirmaria não ser tão somente um corpo, e sim a sua alma. Pode ser do entendimento - ou não - tudo que foi dito até aqui, não importa; o fato é que em todos os relacionamentos humanos, no momento crítico, faça sempre uma pergunta: "o que o amor faria agora?"

quarta-feira, 2 de maio de 2018

"Leva-se muito tempo para ser jovem"


Alessandro Lo-BiancoJá estava me preparando desde algum tempo para este momento, esta apoteose da vida. Juntei alfarrábios. Coloquei em ordem minhas lembranças. Revelei e produzi, com reflexos em todo meu sistema neurológico, os sonhos que carrego nestes anos de peregrinação pelos meus caminhos e descaminhos. De súbito, fazendo uma reflexão profunda, sofri amputações em minha alma. Tropecei. Quase cai. Dei uma esbarrada na parede. Mas pensei como Voltaire: “algumas picadas de mosquitos não podem deter o cavalo em sua fogosa corrida”.  E é lembrando de Schoppenhauer, que testemunho, divido e compartilho a miséria e as dores do mundo aqui. Em dado momento, sentimos não caber dentro de um post. Mas e daí? Rompemos então as peias de um clique e fazemos outra postagem. E se um manual do que “devemos ou não postar” fosse feito, subtraindo da gente o prazer de escrever sobre o que estamos com vontade, diríamos ser aqui, aí sim, um repositório de merdas laborais. Para mim, um espaço sem graça. Então é preciso explicar, antes de mais nada, que entro aqui para descobrir nas pessoas, de forma espontânea, o que cada um carrega na mala. Uns trazem o colorido, outros o crepe da dor. Outros o violáceo das recordações saudosas, outros o róseo das primaveras saboreadas vida afora, sem nos esquecermos das exposições espiritualistas de cada um. São posts e retratos da gente, uma encarnação digital das nossas vidas, a materialização do colóquio, a história viva do meu tempo e também do futuro, quando poderemos, aos 100 anos, rolar essa timeline e nos lembrarmos do que fomos e sentimos há dezenas de anos. Não vivo o mundo da conspiração. Prefiro a vida real. E erra quem diz que ela também não está nessa telinha que estamos vendo agora. E estará tudo aqui, incluindo os pregões das nossas decisões, dos lugares onde vivemos, das coisas vistas e dos fatos testemunhados como um grande álbum digno do século de Nava. Eu, particularmente, recuso permitir que me seja removido ou aplacado esses recortes por qualquer processo. Talvez, porque não seja o único a aflorar aqueles complexos filosóficos e princípios religiosos que antes não tínhamos consciência de possuir. Bastou uma perda física ou moral e entramos aqui e experimentamos em nosso espírito o efeito dessa mutilação. E há muitas possibilidades de nos expressarmos aqui. Por exemplo, acabaram de me perguntar se eu “acho” que vou envelhecer numa redação. Isso me fez esquecer tudo o que eu estava dizendo até agora e resolver mudar completamente de assunto para falar sobre a juventude. Cocteau dizia ser a juventude “uma qualidade que só a idade faz adquirir”, confessando Picasso, do alto de seus noventa anos: “Leva-se muito tempo para ser jovem."  

sábado, 21 de abril de 2018

eu especulo a respeito de mim mesmo


Alessandro Lo-Bianco - A alma - nossa alma - sabe tudo que há para saber o tempo todo. Nada é misterioso ou desconhecido para ela. Contudo, saber não é o suficiente. A alma procura experimentar. Você pode saber ser generoso, mas a menos que faça algo que demonstre sua generosidade, terá apenas um conceito. Pode saber ser bondoso, mas a menos que seja bondoso com alguém, só terá uma ideia à respeito de si mesmo. É desejo da nossa alma transformar o melhor conceito sobre nós mesmos na melhor experiência. Enquanto o conceito não se tornar experiência, é tudo especulação. Eu especulo a respeito de mim mesmo há muito tempo. Há mais tempo do que eu e nós juntos poderíamos nos lembrar, do que a idade deste universo multiplicada por dois. Então você vê o quanto é nova a minha experiência de mim mesmo.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Conjuntivite nunca mais


Quando uma pessoa aparece com uma conjuntivite crônica do nosso lado, a primeira reação que temos é evitá-la. Mas, certa vez, diante de uma pessoa com um quadro crônico, e que precisava de ajuda, acabei preferindo pegar também a conjuntivite para fazer companhia à pessoa e dividir com ela as aguras que a infecção na vista trouxe. Mas me enganei pensando estar provando algo pra essa pessoa. Resultado: peguei, conscientemente, uma baita de uma conjuntivite que fez rasgar os olhos de uma dor que não era minha. Hoje acordei e do nada esse fato amanheceu martelando à minha cabeça. Corri para escrever, porque quando isso acontece é quando me sinto mais sereno para entender o que só consigo com mais clareza quando faço esse exercício. Hoje, consigo perceber que o "ato consciente da conjuntivite" que trago à tona aqui pra exemplificar a temática deste post, na verdade, foi um ato que me distanciou do amor próprio. Relembrando a fundo essa história, me veio à luz que de nada valeu esse ato insano, e que somente o auto-amor é a base para uma vida em sintonia com o que nos faz bem. Como seremos capaz de amar ao próximo, quando, na verdade, não sabemos amar a nós mesmos? Quais são as bússolas que devemos usar em busca da nossa felicidade? Àquela altura, meus dois olhos já estavam vermelhos, coçando, e o pior: fiz isso sem pensar que nem mais um plano de saúde eu tinha. Foi errado, mas, infelizmente - ou felizmente - alguns desses conceitos são percebidos apenas por meio do que chamamos de experiência. E ela nos leva ao discenimento, e este nos leva à porta da compreensão. E a compreensão identifica a verdade. Saber o que nos convém, saber o que nos faz bem exige esse discenimento o tempo todo: quanto damos para os outros e quanto damos a nós mesmos... Acho que depois dessa mega introdução está mais claro sobre o que eu vim escrever: a grande distância que separa a "individuação" da atitude de "individualismo". Acho que esse carnaval foi uma semana em que muitos brasileiros puderam perceber como nossa sociedade tornou-se decadente com o indivudialismo, não nas alegrias, mas nas tristezas. Refleti muito esta noite sobre duas coisas: o aprendizado novo que chegou em 2018 foi esse: diferenciar individuação de individualismo: a individuação é a forma como nos constituímos como eu na sociedade (penso, logo existo), já o individualismo é a forma como nos comportamos na sociedade (eu isso, eu aquilo, eu vou, eu mereço, eu quero, eu posso, etc). Na individuação encontramos a "necessidade" enquanto no individualismo temos a prevalência do "interesse pessoal". Na individuação temos a alma, no individualismo, a personalidade. Na individuação temos a consciência, no individualismo o ego. Na individuação existem descobertas e criatividades, já no individualismo a imitação e a disputa, muitas vezes compradas a título de cartão de crédito para parecermos com o que não somos. Na individuação temos o preparo e o amadurecimento, no individualismo a precipitação. Na individuação experimentamos a realização pessoal; já no individualismo a insaciedade. A individuação é fruto do amor; onde floresce o crescimento espiritual, a amizade, a compreensão e o companheirismo; enquanto o individualismo é a base do egoísmo. No final, são valores passados de pai para filho. O individualista, queira ou não, também caminha em seu processo de individuação, mas, evidentemente, com menos consciência das suas reais necessidades, permitindo larga soma de interesses particularistas. Enfim, pegando ou não a conjuntivite alheia, devemos sempre pensar: vamos agir como quem pode escutar os altrives da alma alheia sem olhar para nós? Sem esperar respostas, finalizo o post levantando que ninguém tem culpa de tentar ser feliz, de se enganar ao nutrir certezas sobre uma atitude do próximo que, muitas vezes, só transparece a expressão de um cativeiro de personalismos... Vamos buscar agora os melhores caminhos só depois de curada a conjuntivite: e não faça como eu; proteja sua vista sempre, pois são os olhos da sua única alma. 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Meias verdades


É incrível; falo aqui de experiências próprias; como apegamo-nos com facilidade aos conceitos que criamos para gente para acreditarmos que são a mais pura manifestação de verdade sobre o que o outro é. Por mais ajuizado seja nosso parecer sobre o próximo, o apego acaba virando a mais vil expressão das nossas carências. A gente, com o passar da idade, com o desenrolar da experiência de vida, com as porradas que as pessoas vão dando na gente, vamos percebendo que os conceitos que criamos para quem gostamos, no final das contas, são perdas de tempo, e que as intenções é que sempre continuarão sustentando nossos ideais. Isso porque não existe nada que possa destruir nossas intenções, a não ser nossa escolha pessoal. E a nossa escolha pessoal é como se fosse a armadura da alma. Somente através da sinceridade das nossas intenções é que nos protegemos da adesão permanente de situações, condutas, pessoas e relações ruins. E a lei de sintonia, a mesma lei de ação e reação, felizmente, é o alicerce desse processo que consolida ou interrompe nossos elos. Nossas intenções são como plugues mentais, em que os valores humanos e a preocupação com o próximo torna-se um canal de frequência para aqueles que desejam ser felizes e ver os outros felizes sem capa ou máscaras. Precisamos de muita atenção com as intenções. Mesmo aquelas que surgem, num primeiro momento, travestidas de amor. Nossa literatura está cheia de exemplos: no campo religioso, por exemplo, Judas - com intenções amorosas - sucumbiu sobre os açoites do poder e traiu Jesus três vezes... Infelizmente fomos treinados para atender expectativas e por isso esperamos que os outros correspondam as nossas. E isso é muito difícil, porque fomos treinados também para ter medo de pensar sobre nós ou sobre a capacidade de gerir nossos próprios caminhos. E a pior consequência dessa falta de autonomia é medir o valor pessoal pela avaliação que as pessoas fazem de nós, pois, na maioria das vezes, o ser humano encontra dificuldades em suportar a felicidade alheia. Por medo de rejeição, em muitas situações, agimos contra os nossos sentimentos, desta forma, apenas para agradar alguém. E o final dessa estrada é sempre um: a gente não percebe a maldade e vai se definindo pelo outro e termina por tombar em conflitos e decepções, mágoas e agastamentos, mesmo depois de tantos e tantos sinais e provas, quando não a submissão. Jogar de forma sincera com nós mesmos e com os outros é a maior defesa da alma, porque estabelece limites para o nosso caráter, produz serenidade na alma, dilata a autoconfiança que merecemos e coloca-nos em contato com o que somos, pensamos, e acima de tudo, faz respeitarmos o sentimento e a sensibilidade das pessoas. Faz a gente nunca querer ver o outro como não gostaríamos de estar. Fora disso, tudo vira desprezo com o problema e a fragilidade do próximo, vira tudo meias verdades que serão sempre multiplicadas em sacolas de lixo por quem se alimenta com indiferença da ingenuidade, da dor, e da fragilidade alheia.   

sábado, 23 de dezembro de 2017

Barco deletado


Alessandro Lo-Bianco - Sou levado, sou enrolado, sou eu até onde bater mais forte. Na encosta me encosto, e fico feito barco parado à beira-mar. Um navio inexistente, apagado, feito arco de harpa velha em depósito alojado à mostra para o que já não é mais. Foi-se o dia, foi-se o som, foram-se notas. O som parou e agora virou plateia.



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Na busca pelos nossos sonhos



Alessandro Lo-BiancoA gente sofre nessa vida em nossa busca solitária pelos nossos sonhos. As vezes nos sentimos culpados e "adúlteros" com nós mesmos quando insistimos em virar a cara para os pensamentos que tentam nos desestimular diariamente. Parece que estamos mesmo sendo colocados à prova todos os dias. Sentimos, por vezes, uma barreira entre nós, face ao que fomos, somos ou ainda poderemos ser, e os outros. Por vezes somos vítimas de um efeito psicossomático que perturba essa busca que empreendemos - mais por vício de nos tornarmos alguma coisa do que por necessidade. Tentamos, inutilmente, afastar lembranças nessa busca, mas, o que conseguimos, muitas vezes, é uma satisfação incompleta. E, por isso, vamos vivendo desinteressados, ocos, indiferentes. Quase vazios de sentimentos, ante a maldade que o destino faz com a maioria de nós, pelo acaso. Muitas vezes, tudo o que queremos é não olhar, não ter que olhar para o futuro, viver sem precisar se abastecer de qualquer estímulo para tanto. Aí, quando chegamos nesse ponto, começamos a ruminar o passado e isto passa a constituir o nosso presente. Você espera em Deus, ou qualquer coisa ligada a alguma crença pessoal, que algo encontre por você. E passa a esperar. Essa busca, pressentimos, é muito difícil e sofrida, dada a nossa falta de fé, ou até mesmo ao excesso dela, que faz a gente insistir nas coisas. E aí, até esse dia chegar, sem saber se irá chegar, ficamos numa espécie de oração, rezando, ou como qualquer um pode chamar este processo, confiante em que essas orações cheguem até algum "Deus" - e o pior, sem que ele leve em conta os pecados que cada um de nós carrega nas costas. É a vida.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Laços afetivos


Alessandro Lo-Bianco | Como é natural, entre as pessoas, com o decorrer do tempo, um relacionamento ou uma relação de amizade torna-se mais íntima. Por isso é que particularidades da vida de cada pessoa vão surgindo em conversas, favores e pedidos espontâneos. Daí algumas postagens que faço e que só interessariam a mim se tornam objetos de postagens dando a ideia aos demais de como penso e sou. Já escutei muita coisa decorrente da intimidade de pessoas próximas que, seguros do desabafo, relataram dramas, comédias e favores que precisaram ou pediram, atendidos ou não. E aí são nestes momentos que sento e escrevo pra tentar, também, passar um pouco de mim mesmo, ou escrever pra mim mesmo. Olhando pra trás, no geral, fazendo um balanço da vida, durante 34 anos, fui um cara feliz. Apesar de perder coisas e laços afetivos importantes muito cedo, em que pese a falta que me fez e faz, eu, então, atônito, sem capacidade suficiente para avaliar o valor da perda, ainda sim, cuidei de me adaptar a situações novas, buscando meus próprios caminhos, sempre no esforço de subir sem nunca boicotar ou derrubar alguém pra isso. E meus exemplos, aqueles que procuro replicar, são permanentes marcos do tempo em minha lembrança. Tanta gente boa passou me dando bons exemplos sem que eu pudesse agradecê-los com total dimensão do exemplo que foram pra mim....Nem sabem que se tornaram tão grandes em minhas vidas. Alguns até sabem, pois consegui expressar meu carinho por eles, quando não hesitei em guardar a sete chaves quando passaram por minha vida no trabalho, nas redações. Apesar de sentir demais algumas perdas e ficar um pouco inseguro com a vida ao receber algumas notícias, seja de saúde ou afins, sempre estive empenhado na luta para assimilar todas as dificuldades como um homem maduro, que apesar de sentir demais algumas perdas, absorveu-as com o conformismo escorado na filosofia simplicista e acaciana de que nascemos e, um dia, sem exceção, teremos que morrer. Feito este entróito, em grandes números, de modo sintético, retorno ao balanço da minha vida; Durante 33 anos - antes de um problema autoimune na coluna - fui uma pessoa feliz. Fiz da vida o que quis e, sem dúvida, se morresse nessa idade, não iria arrependido por não haver gozado mais a vida, rapaz saudável e livre que eu era. Vivi, hedonisticamente este período. Aos 31 resolvi ter uma filha, planejei isso. Foi quando, apesar de tudo, recebi uma vida mais feliz ainda. A escolha não foi porque conheci a pessoa perfeita pra isso: foi porque quis me tornar pai: para isso foi preciso montar uma estratégia de vida, de sobrevivência, da qual resultou uma série de táticas, fundamentada no terreno precioso a ser percorrido, das forças de que dispunha, do apoio logístico, e, como não poderia deixar de ser, tudo visando a um objetivo: um lar seguro, uma casa, do tipo onde não precisamos pedir nada e nem depender de ninguém pra sermos nós mesmos, exceto quando o respeito e o bom senso fala mais alto. Neste tipo de aventura, conforme muitos consideram após uma visita na minha casa, os desesperados, insensíveis, ou os que se prestam à preguiça e a má vontade não atingem suas metas desejadas na vida real. Não neste tipo de empreendimento de vida. Por isso minha filha só me trouxe felicidades. Por que ela, sim, move isso em mim, mais ninguém. No geral, acho que é assim pra todo mundo, somos movidos apenas pelo desejo de agradar os filhos. Poderia ser a história de vida de um homem folgado de clássia média, que não se importa em sair fazendo cocô de porta aberta na casa dos outros... Mas não... não sou assim. Fui criado à moda antiga. Sou da época que uma mulher valia um tesouro. Da época que cada amigo verdadeiro tornava-se um patrimônio da família que buscamos montar. Depois mais filhos e por fim netos e bisnetos gerando sempre mais alegrias e felicidades. É o que busco. Nada demais. Acontece que para felicidade sempre haverá também um alfa e um ômega. E meu alfa chegou ano retrasado com as dores na coluna. Antes disso, foram três décadas perfeitas sem dor. Meus grandes amigos, que não se distanciaram depois disso, parecem ter sido recrutados por Deus, me fazem as mais variadas gentilezas com suas provas de amizades, carinho e atenção. São amigos. Muitos, mais do que tantos outros da minha própria família. Ocorre que, parando para olhar a vida de tantos outros brasileiros, eu tenho uma vida muito boa, e sinto a necessidade de agradecer, todo dia, por estar vivo. A vida em si mesma é o único milagre real palpável que conheço e faço parte. Então agora me dou conta novamente que uns sofrem mais, outros sofrem menos; mas, inexoravelmente, todos temos que sofrer. Uns sofrem durante toda a vida, e há os que sofrem apenas por certo tempo. Porém, ninguém deixa de receber sua cota de sofrimento decorrente dos seus próprios egoísmos e insensibilidades. Chega um momento em que da prenhez da felicidade advém partos de amargura que vão nos trazendo mais conhecimento sobre as pessoas, a vida, o comportamento humano. É sabido que na vida nada se recebe de graça. Meu avô falava muito isso pra mim; sempre tentava me elucidar e me preparar para essa armadilha. Uma das frases mais importantes que lembro foi: "Alessandro, quando alguém te pedir um favor importante, faça com a consciência de que o melhor do favor é que o mesmo não será retribuído. Fora disso é troca, permuta, que descaracteriza o favor". Mas há quem não consiga ser assim, a maioria, também segundo meu avô. Para cada favor parece que as pessoas na sociedade atual cobram um crédito, uma nota promissória que nunca será esquecida. Juros sob juros nas contas da felicidade. E quando a gente vê isso no coração de alguém - pelo menos eu - sinto como se estivesse recebendo um pequeno dreno de melancolia aflorando na crença sobre as pessoas. Contudo, sempre quando me deparo com esse tipo de situação e escrevo pra desabafar, é a melhor forma de deixar, rapidamente, essa UTI da alma e da coluna em que, vira e mexe, me encontro. Convalescente, posso avaliar nestes momentos quem não está preparado para receber o quinhão dos sofrimentos e me sinto bem logo em seguida. Poderia me tornar apático e, não poucas vezes, neurótico, dada a repressão que exerce com relação a hábitos e desejos dos tempos da felicidade perdida, aquela hoje irreparável, isenta de qualquer tipo de dor. Mas, em verdade, ninguém pode parar ou estagnar na dor se ainda está vivo. Seja por tratamento específico ou por auto-entendimento de personalidade, forçoso é convir que o vento da vida continua soprando, impelindo, uns para frente; outros, fazendo recuar, em razão das diferenças individuais. Nesse passo, creio, sem muita convicção, que algumas pessoas podem até voltar e gozar outros períodos de felicidade, tudo dependendo de fatores diversos como saúde, idade e, sobretudo, do ânimo em buscar esse oásis no deserto da solidão em que vivemos. Quanto a mim, nesse exato momento, posso afirmar que parei no tempo. Estou como os cataventos que indicam a direção do vento. Se existe algo bom na experiência da velhice, deverá ser isso: ser como um catavento orientando a direção do vento para os mais novos nos campos de pouso dos aviões. Quero envelhecer bem um dia e sentir isso verdadeiramente. A experiência da idade. Mas, por enquanto, viro-me para o lado que o vento sopra sempre perpendicular ao mastro que me suporta. E assim, indiferente, vou me deixando levar pelo vento da vida. E, do balanço que faço, apurado na minha sintética contabilidade, vejo que o destino - credor privilegiado - exigiu, em contrapartida, o pagamento pelos tempos privilegiados de felicidade que me proporcionou nessas três décadas. Contudo, concedeu-me moratória para pagamento em parcelas de dores físicas e morais, representadas também por saudades e lembranças idas e vividas, tudo com a cláusula de extinção de dívida, quando ele, o credor, julgar que os meios de pagamento estão esgotados, ou seja, o meu fim. Quando chegar, espero que seja sem inflação, e perfeitamente suportável, ainda, na era do tão sonhado e esperado Plano Real. Do contrário, aceito o anátema perturbador que me situa como candidato a uma vaga no inferno; onde nunca escutaremos como resposta a um pedido de favor a expressão "nem fudendo".

Meus fios de cabelos brancos


Alessandro Lo-Bianco | Lembro a primeira vez que surgiu um fio branco no meu cabelo! Naquela hora nem liguei, pelo contrário, me senti até alguém de verdade. Mas, depois de algum tempo, já não dava mais importância. Afinal, o que é um único cabelo branco em um universo do coro cabeludo? Agora não importa para que lado jogue meu cabelo, ou a maneira que eu vá cortar: são centenas de fios branquinhos e branquinhos. Amareladinho, pode ser? Não, é branco mesmo. Conforme eles iam crescendo eu só exercia uma técnica infalível: preparar, apontar, arrancar! Como todo brasileiro imediatista, não pensei a longo prazo; e agora? 200, 1.000 fios brancos! Todo mundo pensa em ser jovem, eternamente jovem. O mercado da beleza é impiedoso e fuzilante neste sentido. Pra mulher é pior ainda. Quando chega em destaque na televisão é o novo cabelo da Tempestade do X-Man ou uma atriz bem malvada, como em O Diabo Veste Prada. Quando apareceram os cabelos brancos de Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, esta precisou correr e enfiar no meio de uma coletiva, sem muito sentido, que a "nova" cor do cabelo se mostrava relevante para a competência dela no cargo, disse brincando. Mas quando Obama, Putin e Bill Clinton começaram a ficar com cabelos brancos ninguém começou a relacionar sua aparência com incapacidade de liderar um país. Já Dilma teve um fio de cabelo branco destacado numa capa de jornal. De péssimo gosto e inventividade, diga-se de passagem. Confesso que ando pensando ultimamente sobre os meus cabelos brancos. Eles me fazem vislumbrar um futuro de confiança, melhor, juro! Isso poque nem todos os prazeres da vida só valem enquanto o homem é forte e capaz de desfrutá-la, com seus cabelos pretinhos, castanhos, ou loirinhos. Mentira; há prazeres que os moços jamais poderão sentir, porque certos prazeres são como mosaicos, cujas últimas peças só os cabelos brancos podem encaixar. Por exemplo, há quem tenha netos antes dos cabelos brancos, mas conversar com eles de homem para homem só com a cabeça branca, ou sem nenhum cabelo, nem preto e nem branco. E isso, inegavelmente, é um prazer e dos bons. Achar ridículo a vaidade é outro ponto. É claro que, por raciocínio, um homem aos 30 anos pode conseguir, mas o certo é que, geralmente, só depois dos 60 a experiência da vida deve mostrar ao homem como é fútil e descabido esse hábito tolo de arrancar cabelos brancos, que tanta preocupação causa a muitos indivíduos. É verdade que há alguns com mais de 60 que, ainda sim, cultivam a vaidade, mas são exceções. Manda uma "demão" de tinta marrom Caju, aquela coloração marrom vermelho escroto e tá tudo certo. Tenho coragem não... Penso que a a sensação de realização plena virá mesmo com os cabelos brancos. Talvez, o maior dos prazeres, esteja intimamente ligado aos fios brancos. Que grande prazer não será, por exemplo, ver-se uma família inteira criada, os filhos encaminhados na vida, os netos gritando seu nome puxando a barra da sua calça, dando-nos, com isso, a prova cabal de que atingimos a meta, de que cada fio de cabelo branco valeu a pena!

Segregação social


Alessandro Lo-Bianco | Ninguém consegue progredir sem sofrer. Infelizmente, isso é pra todos. Homens e mulheres que se julgam acima da lei, acima das pessoas, um dia terão que sofrer, também, se quiserem andar pra frente. Terão que abrir mão de seus egoísmos se quiserem progredir. Mas só vemos uma cambada de políticos afortunados fazendo aumentar a revolta daqueles que se encontram em um lugar com as piores condições possíveis. Agora, em meio a maior disputa de poder que esse país já viveu, diferente do que estava acontecendo até algum tempo atrás, dependendo do resultado dessa disputa nojenta, muitos que precisam reivindicar seus direitos de verdade vão receber tão pouca atenção, que irão continuar sem atenção e assistência para resolver seus problemas. Sim, ASSISTÊNCIA. Aliais, desde criança, cresci escutando meu avô falar essa palavra: assistência. Assistir a quem não é assistido. Com o tempo, o egoísmo humano modificou essa palavra. Pessoas que representam um determinado segmento da sociedade modificaram essa palavra. Tentaram e ainda tentam colocar na cabeça das pessoas de bem que fazer assistencialismo é "criar vagabundos". MENTIRA. Isso é argumento de gente mesquinha que nunca irá desejar repartir o que tem com quem nada tem. Para quem não tem, lidar com esse argumento escroto não deixaria de causar nada mais além de revolta, sofrimento e dor. Essas são as únicas coisas que não faltam acumuladas em muitos que não podem ter, que estão à margem e imersos nas vulnerabilidades sociais esperando oportunidades para que, como numa erupção, sejam jogados para fora da privada do sofrimento.E o que é oferecido para que isso não domine a sua mente e o leve à loucura? Tenho visto muita gente de rua andando de um lado para o outro falando sozinho, enlouquecidos. A pobreza enlouquece. Talvez algum tipo de entorpecente ajude a aliviar. Mas, não consigo entender por que pobres são chamados de animais, de loucos e outros nomes só porque estão na rua, porque não conseguiram a casa própria, não conseguiram bancar um sistema de saúde, muito menos educar os filhos frente a educação que tiveram pelas ruas. Sabemos que nossos governantes, políticos, só alimentam a destruição em nome de seus egoísmos. Isso nos coloca numa situação em que cada dia vivido parece um dia sobrevivido. Começamos a olhar a vida pelos dias. Um dia aqui sobrevivido é uma grande vitória, pois nunca sabemos o dia de amanhã. Nos acostumamos a não saber o dia de amanhã. Funcionários públicos hoje vivem isso na pele. Talvez agora entendam o que uma pessoa que não é concursada passa. Talvez, quando suas situações forem normalizadas, e suas "estabilidades" provenientes de um concurso público colocadas em dia, passem a olhar mais quem os ajudou neste momento. Sempre pode ocorrer uma surpresa. Não receber salários foi uma das grandes, que sacudiu o egoísmo do funcionalismo público. Todos chegamos a um ponto em que foi necessário juntar esforços e nos ajudarmos. Era o faxineiro, o porteiro - hoje empregados - levando, de boa fé, sacos de arroz e feijão comprados com seu salário, para doar alimentos na tenda montada em frente a Alerj que seriam destinados a um concursado que nunca olhou para ele, e que, a bem da verdade, nunca o ajudaria. Mas a vida é assim. O gostoso do favor é a certeza de que o mesmo não será retribuído. Em seu subconsciente, você fica ligado a uma única coisa: "liberdade". Há quem ache que podemos obter a liberdade ajudando o próximo. Há quem pense o contrário. E, seja qual for o caminho que você encontre o sentido pra sua vida, nem sempre estamos acompanhados pela sorte, e isso também não quer dizer que você esteja errado. Em nosso país somos vistos pelas telas das casas, somente, na prática dos erros. Mas ninguém fala sobre o sistema desumano que nada oferece em benefício dos mais necessitados, que é a rua. A única coisa que vejo quando olho essas pessoas na rua, embaixo das marquises, adoecendo e morrendo pelo meio fio da calçada, é a saudade... saudade de quando eram crianças, de quando, mesmo vivendo na rua, ainda não sabiam o que viria a ser a rua. A maioria das meninas de rua descobrem o que é a rua quando são estupradas pela primeira vez. Sim, pela primeira vez. São estupradas pra ter o que comer quando não conseguem esmolas suficientes. Cobramos que essa pessoa pare de esmolar de um dia pro outro, que arrume um emprego e mude de vida. A vida não é o pudim e a gelatina que sua mamãe enfiava no seu cú pra te fazer feliz quando você chorava e levantava os braços pedindo "cóinho, mama". Aquilo era só a sua vida, que de nada se assemelha com a vida real de quem ainda corre o risco de perder nas ruas o pouco que chegou a conquistar, a sua própria vida. Talvez alguém um dia perceba que os moradores de rua, os infortunados da vida, os "mendigos", que essas pessoas também têm idéias, sentimentos e projetos. Sonhos. Talvez nunca acreditem, pois, aos olhos dos "grandes", não passam de números. Números estes que aumentam e superlotam nossa cidade cada vez mais. Mas, semelhante aos números, temos a soma dos nossos ideais e às vezes conseguimos ajuda para conquistar um espaço, mas que em breve será fechado, por aqueles que não acreditam em nosso valor. Cadeia, morte provocada por falta de cuidado ou atendimento, suicídio ocasionado pela revolta do seu enquadramento social, revolta pela discriminação e condição de vida oferecida para quem nela vive. Isso aqui, esse antro de maldade, é a verdadeira fábrica da destruição do mundo, pois enquanto houver esse egoísmo todo, nada vai mudar. Ao tentar colocar em palavras tudo o que vemos e passamos pelas ruas, mesmo sem ser morador de rua, é possível sentir um aperto muito grande no coração, sabendo que para a sociedade o valor dessas pessoas que moram ali é "zero". Sim, é zero. Como as pessoas de rua podem tentar levantar suas auto-estimas e se auto-valorizarem pelo que são, pelo que ainda poderão fazer, caso um dia possam, de fato, fazer? Nos colchões das ruas é que moram e acontecem os maiores sonhos com a Paz. Não duvido disso. Paro por aqui e pergunto: Quem nasce num barraco apanhando do pai alcoólatra enquanto a mãe faz programa no quarto pedindo pra você esperar na cozinha, quando essa criança sai de casa com nove anos pra não apanhar mais, não viver mais nisso, quando ela precisa esmolar pra não morrer de fome, ou quando acaba sendo estuprada, ainda criança, e encontra no crack uma fuga pra única vida de merda que tem, como alguém pode falar que se você der uma esmola para essa pessoa poderá estar auxiliando a vagabundagem? Seremos então nós, com um bom coração, os culpados pelos crimes daquela pessoa no momento em que prestamos um auxílio? No mundo em que somos julgados pelos mesmos pecadores, só nos resta esperar mesmo a morte.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Quando Deus falou comigo


Alessandro Lo-BiancoVoltando do trabalho, ao desembarcar do ônibus no Jardim Oceânico para pegar o metrô até o Catete, um senhor de aproximadamente 70 anos, morador de rua, caído no chão, esticou e abriu a palma da mão na minha frente. Isso, por si só, já seria o suficiente para me causar uma angústia e estragar o dia na certeza de que o mundo não deu certo. Mas agora não, eu mudei! Forçando a indiferença que nos é dada por natureza e instinto, segui em frente e entrei na escada rolante. Coloquei a mão no bolso e ali toda a minha economia e da Valentina: R$ 11 reais. Já havia planejado tudo no ônibus antes de desembarcar: "todo mês dá certo, vou comprar novamente 2 pacotes de macarrão, uma caixa de ovo e um saco de batata. Ainda sobrariam dois reais para comprar uma gelatina e fazer uma travessa de sobremesa que, à prestação, não faltaria ao capricho dela. 


Ocorre que por não ter o hábito de ignorar pessoas na rua, coberto pela minha diária revolta, descontrolado por um desses impulsos que a gente não entende como acontece, peguei a escada rolante de volta e lá estava aquele senhor; só que agora com quatro cachorros deitados ao seu lado. Dois abraçados com ele. Na hora, não me ocorreu qualquer hipótese de aproximação. A explicação era que havia dado vontade de fumar um cigarrinho antes da viagem. Ainda meio desnorteado, como quem volta ao local do crime para observar se alguma digital estaria visível para me denunciar pelo crime de indiferença ao próximo, imprudentemente saquei 1 real dos 11 que tinha pro jantar e comprei um cigarro varejo na banca e me coloquei a observar de longe aquele senhor. Foi aí que ele olhou para mim e levantou, logo que descobriu que eu acendia um cigarro. p-u-t-a-q-u-e-p-a-r-i-u, não!!! não venha, faça a curva e tome outro rumo, não faça isso desgraçado, senta de novo, pára de andar mula, vixiiiiii chegou!, eu voltei. a culpa é minha. Não deu outra, pediu tremendo um cigarro. Comprei um pra ele na banca e aí cometi um deslize. Tirava do bolso a nota de 10 reais na frente daquele miserável para comprar o que tanto acalentaria a sua alma por apenas algumas tragadas. O troco voltou todo em moedas, nove moedas. Aquela altura, os quatro cachorros já nos circundavam. Ao olhar as moedas, aquele senhor novamente estendeu e abriu a mão. Só que dessa vez, na frente de maior galera, que não sabia que tinham nove reais em moeda na minha mão, deviam achar que eram três, dois, até quatro talvez. Gente, estamos no sal, na merda, NOVE REAIS EM MOEDA! Foi como uma faca enfiada no peito. Nosso macarrãozinho... Num segundo impulso, totalmente descontrolado, acabei de forma irresponsável e sem autocontrole entregando as moedas que pagariam, de certa forma, a minha sobrevivência e da Tina nos jantares até sexta-feira!! Entreguei as nove moedas de ouro. O senhor pegou as moedas e deu aquele sorriso como se realmente fosse a salvação. Tão somente ternura e agradecimento, nada mais a me oferecer como contrapartida. "Muito obrigado", disse. Meio chateado com tudo, ignorei, fui mal educado, fiz cara feia de reprovação social e retornei novamente para entrar no metrô. E agora? Como vou fazer com o jantar e com a Valentina; tudo bem, são apenas 10 reais, mas é foda! Se eu entrar no metrô e vier um músico barbudo tocando violino e sorrindo eu vou roubar o chapéu com as moedas e bater nele. Me acalmei e pensei, vou pedir dez reais pro vizinho, amigo, meu salário já entra na sexta por causa do feriado. E aí, eis que um milagre acontece. O terminal do Jardim Oceânico é o ponto final para quem vem da Zona Sul; todos são obrigados a deixar a composição. Apenas eu, por volta das 16h40, estava ali para entrar no vagão. Outros poucos não estavam na altura do vagão que eu entraria. As portas se abriram, as pessoas saíram, e eu entrei sozinho no vagão escolhido. Não acreditei no que vi: uma nota de CINQUENTA REAIS em cima do banquinho cinza. CINQUENTÃO, CINQUENTÁSSOO! Primeiro olhei pra trás, a multidão que deixava o vagão já subia pelas escadas como o desespero sobe às paredes. Alguém havia perdido uma nota de 50 reais que provavelmente estaria no bolso largo ou no bolso traseiro da calça, e esta caiu quando o passageiro levantou para deixar a cadeira. Pensei que talvez poderia ser um daqueles testes de honestidade que passam na televisão, e fiquei sem reação. Só eu estava ali, mas, jornalistas que somos, me constrangi pensando numa possível gravação e me imbuí de falsidade ao sentar no banco onde a nota estava. Sentei em cima da nota. O peso da desonestidade. Como era uma pessoa podre. Discretamente, pensando em burlar a gravação do teste de honestidade do Fantástico ou do Faustão, fiz o movimento como quem iria coçar a bunda e fui arrastando a nota até o meu bolso, pronto. Ninja! Enfiei. Estava eu consagrado naquele momento pela desonestidade e mau caratismo. Pode me incluir na lista do Janot, Cinquentão que não vou declarar, dana-se. Logo depois lembrei que havia dado o dinheiro que eu tinha para o senhor de rua, e que, talvez, eu merecesse esse dinheiro. Era isso, pensei. E lembrei da Valentina. Por que batata e macarrão? Tina tem intolerância a qualquer proteína animal, e por isso é vegana por força do destino, fitness. Iria então no Grão, em Laranjeiras, e com aqueles 50 reais compraria carne de soja, queijo vegano, os bolinhos de soja, os biscoitos, daria pra caprichar sendo bem seleto. Não deu outra, tinha até o salaminho de soja que Valentina quase chora de prazer ao comer. Comprei 300 gramas. Ao chegar em casa, esqueci que havia comprado tudo no Grão com os 50 reais; a sensação era de que acabara de comprar o macarrão e as batatas e o ovo. Talvez pelo hábito rotineiro e salvador que me ocorre, alguns meses, todo fim de mês. "Pai, você vai fazer o jantar'? "Sim, filha, macarrãozinho, com batatinha e ovinho." "Pai, pode fazer a batata frita pra ficar diferente? Aquilo me rasgava o peito, e eu respondi que sim. Mas, ao abrir a sacola, estava lá tudo que ela gostava e eu me dei conta de que a situação seria outra! "TCHANÃMMM OLHA O QUE PAPAI TEM!!" E tirei o salame de soja da sacola. "PPPAAAIIIIIIIIII NÃO ACREDITOOOO ME DÁ ME DÁ ME DÁ... Ela foi para a varanda para não dividir comigo o salame - num claro ato de egoismo humano, aqueles que aparecem quando somos bem crianças e estamos aprendendo a dosar o bem e o mal que habitam em nós - abriu o plástico, pegou dois de uma só vez e colocou na boca enquanto eu observava. Foi quando virei de costas para acender o fogão para preparar o jantar e, sem falar nada, ela veio correndo e abraçou o meu joelho. Sim, crianças não pedem para adultos abaixarem para abraçar. São os adultos que abaixam por iniciativa própria para abraçar as crianças. Criança mesmo vem correndo e abraça o joelho. E Valentina é daquelas que gosta de pedir pra eu andar com ela agarrada no joelho, com os dois pés em cima do meu, desde criança. Talvez meu pai tenha pedido isso para o meu avô um dia, e este, por sua vez, ao meu tataravô, que por sua vez, enfim... Ocorre que ela ficou abraçada ao meu joelho mastigando o salame e eu sentia que ela não estava apenas agarrada. Quem é pai sabe como é a sensação da criança fazendo força pra abraçar. É tipo uma convulsãozinha de força que mais parece um tremelique que dura uma fração de segundo. E ela fazia uma forcinha como quem diz "eu te amo pai", mas estava com a boca muito cheia para falar. "Posso ficar aqui enquanto como o salame pai?" Pode sim filha, só fica atrás do papai por causa da penela. A cada salame que colocava na boca, fazia uma pressãozinha com os braços como quem gostaria de dizer que o abraço era verdadeiro. Até que soltou o que eu tanto desconfiava: "Pai, você está sentindo que eu tô te abraçando?" "Tô sim filha, obrigado". Enquanto mexia a penela, minha garganta deu um nó de choro. Lembrava naquele momento daquele senhor abraçado aos cachorros. Não sei o que ele fez com o dinheiro. Quando dei, só me confortei vendo seu riso e logo depois fiquei puto da vida porque lembrei que tinha que passar no mercado. Não dou o dinheiro ao esmoleiro cobrando o que ele vai fazer com a esmola; esmola é esmola, não salvação. Que se explodam os falsos moralistas e politicamente corretos que, no final das contas, nada fazem por ninguém, exceto os seus. As lágrimas aumentavam a cada barulinho do salame sendo mastigado e o bracinho apertando meu joelho. Naquele momento celebrava uma união divina. Estávamos mais ligados do que nunca: eu, Valentina, aquele senhor, e os quatro cachorros. Nós eramos apenas um naquele abraço. Uma ligação mágica acontecia entre nós naquele momento que eu tenho a certeza de que, naquele momento, algo legal acontecia com ele. Era claro nossa ligação espiritual naquele momento. Fiquei ali imbuído na angústia do choro e esqueci do que estava nas mãos da Valentina. 300 gramas de salame de soja. Aquela altura, ela já consumira pelo menos 297 gramas. Fui falar, mas o choro me fez engasgar até que resolvi esperar um pouco para ela não perceber, e ela foi, bocejando, deslizando pelas minhas pernas, com a barriga em estado lumbricóide de salame. "Pai, tô com soninho. Comi o salame todo, me coloca no sofá?" Peguei minha filha no colo e pensei em falar algo antes que, de fato, ela adormecesse de vez no sono dos justos e do prazer daqueles que dormem de cansaço após fazerem muito o que gostam. Sei bem como é; e é bom demais; já dei meus fodasses colocando caixa inteira de hambúrguer no forno só pra mim, com um litro e meio de coca. Dana-se; não me arrependo. Sei como ela estava; o melhor dos sonos, ainda com a boca temperada pelo divino salame. Sentei com ela aqui no colo, na cadeira do computador... Ela abria os olhos, fechava, abria, fechava, nitidamente entre o céu e o inferno. Pensei, que louco, na lógica da vida ela quem estará me segurando, me vendo entre o céu e o inferno de uma outra forma no futuro próximo. A vida é uma engrenagem incrível e ainda completamente indecifrável. Pensei em falar algo do tipo: "dorme filha, pode dormir", mas engasguei com a angústia do choro novamente. Sim... ela dormiu. E eu entendo agora que não era mesmo o momento de falar, e sim de ouvir. A figura do desfrute do salame somada aos meus nove reais, somados aos cinquenta reais que achei, as compras e a imagem daquele senhor com os cachorros era mais invasiva maneira de atormentar meu ateísmo ou me fazer mais admirador do acaso. Mas sim, não era para falar, era apenas para escutar em silêncio. O tal Deus estava falando comigo. Sim, Deus existe. E ele está aqui nesse momento deitado bem no meu colo. E eu só consegui perceber agora que ele já estava falando comigo também lá no Metrô do Jardim Oceânico.

Da rua para as aulas de anatomia


Alessandro Lo-BiancoQuando estava indo mais cedo para o Ministério Público do Trabalho, havia um senhor naquele boteco ao lado da portaria. Murcho como uma passa e enrugado como papel crepom. Sujo e descalço. Curtindo a indiferença do mundo pela sua miséria. Estava muito mal, com os olhos amarelados, como um morto vivo. Fui saber, ao conversar com um dos procuradores lá em cima, que o velho ficava ali no barzinho gritando que era "gostosão" para qualquer menina que entrava no bar, e que, para os garotos, dizia que já estava em busca de dar "mais umazinha", entre tantas que já tinha dado naquele dia. E inventava histórias que todos ali do bar já conheciam. Pensei: como pode com essa boca murcha e sem dentes. E o procurador disse que, uma vez, presenciou, além das histórias que escuta; que ao entrar no bar para comprar uma água com gás ele abordou uma jovem: "Vem cá, meu bem. Vem namorá comigo, senão outra vai pegar minha mão e vai me levar antes de você, não perca essa chance de ficar comigo". Apesar de achar que tinha 80 anos, o procurador também contou que não passa dos 50, que estava mesmo era estragado pela bebida. Terminado meu objetivo ali, desci o elevador pensando na vida que tinha o pobre aparentemente velho; com certeza, sempre com pedidos às mulheres rejeitados, mas que alimentavam no pobre miserável a ideia de que ainda seria capaz de "dar umazinha". Quando estava saindo do prédio, uma surpresa: o rabecão estava levando o sex symbol de rua para o Instituto Médico Legal. Perguntei o que houve, e o agente disse que, a princípio, infarto. E, pela cara, proveniente de alguma infecção. Também me confirmou outra dúvida: por ser morador de rua, provavelmente, a sensualidade do "gostosão" deverá ir mais além; não por acaso, vai para uma universidade, peladão, servir às aulas de anatomia.


Palavras


Alessandro Lo-BiancoNão esquecer três palavras: por favor, obrigado e desculpa. Esquecer uma palavra: 'esqueça'. Cuidado com duas pessoas: seu melhor amigo e seu inimigo. Cuidado com duas coisas: dinheiro e sexo. Acredite em dois elementos: na fé e na razão da ciência. Dê confiança para duas coisas: você e você mesmo. Guarde dois sentimentos: sua convicções e dignidade. Cuide de dois tipos de pessoas: as viúvas e os órfãos. Aceite quatro coisas: amor, decepção, luta e derrota. Se foi bom: fale. Não acredite: mal olhado. A verdade: não envergonha. 


Se foi ruim: guarda sozinho. Conecte: a existência ao risco; Não confunda: o perfeito e o certo. Mensure: atraso com ocasião; distingua: olhar, de seriedade. Cuidado com duas palavras juntas: erro e frequência. Guarde quatro verbos: buscar, fazer, errar e desistir. Conviva bem com: companhia e solidão. Cuidado ao conectar: culpa e destino. Nunca misture: nervosismo e sono. Misture: música e flores. Roube: beijo. Aceite duas coisas: elogio e crítica. Não ligue: ciúmes com cuidados. Seja: motivo. Não seja: sedentário. Abra: cortinas; feche: perfumes. Tenha: cachorros. Saiba: 1 milhão começa com 1. Saiba novamente: você é 1. Respeite os cinco tempos do ser humano: nascimento, infância, adolescência, vida adulta e a velhice. Pense: na morte; perceba: sua respiração; sinta-se: vivo.

Bons tempos...


Alessandro Lo-BiancoEmigrou da Itália, novo ainda, acompanhado de duas irmãs. Ficou em Niterói. Filho de um oficial reformado da Marinha, tinha, certamente, forte inclinação para a carreira Naval. No Brasil, porém, circunstâncias adversas não lhe permitiam satisfazer esse desejo, ser oficial da Marinha. Optou, então, pelo magistério, matriculando-se na Escola Normal de Niterói, onde os três obtiveram o diploma de professor primário. Tão grande já era seu amor pelo Brasil que, ao preencher o formulário para matricular-se na Escola Normal, mentiu e declarou-se natural de Campos. Falava à brasileira. Por falar assim, muitos dos que com ele conviveram, ainda hoje, desconhecem sua origem.Depois de lecionar durante muitos anos dedicou-se, após a jubilação, ao comércio de livros usados, os sebos. Jornalista, iniciou suas atividades no periódico manuscrito e composto em papel almaço pelos próprios redatores, valia, por isso, como prova de caligrafia dos "responsáveis", contou. Deixando de circular O Normalista, passou a colaborar em alguns jornais, evidenciando profundos conhecimentos sobres problemas educacionais apontando falhas e soluções. Prevendo a pouca rentabilidade da profissão de jornalista e, quem sabe, desiludido pela inoperância dos artigos que escrevia, frente à pouca sensibilidade das autoridades da época, passou a escrever apostilas de aritmética e geografia para o curso primário chegando a editar uma Taboada Elementar adotada nas escolas de Niterói. Era também de sua autoria um abecedário na qual as letras eram memorizadas já compondo palavras como ave, banco, casa, dado, etc. Livreiro, instalou-se na Rua Marechal Deodoro quase chegando à Rua da Praia, pelo lado direito de quem desce a rua, em frente ao antigo Tesouro do Estado, junto a antiga loja Rosa de Ouro. Não tinha auxiliares, ele mesmo abria a loja e invariavelmente encerrava bem antes do horário normal, segundo dizia, para evitar despesa com a eletricidade. Mentia para sair mais cedo e encontrar os amigos no Clube de Literatura da cidade, onde recitavam concursos de trovas. Foi dele a autoria da primeira cartilha que li. Circulava lentamente entre rumas de livros, com um indefectível boné de seda preta na cabeça, marcando preços, separando livros por assuntos, colando folhas soltas ou rasgadas. Aos nossos olhos de criança, seu rosto parecia com os dos reis coloridos dos baralhos antigos. Após o almoço, dormia na cadeira, no fundo da livraria, por trás do balcão, com o abafado som de Nelson Gonçalves na vitrola. Não era raro, por isso, nessas ocasiões, o freguês bater palmas para acordá-lo. E, invariavelmente, restava a mim essa função. Bons tempos.


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Rio: um Estado sem memória


Alessandro Lo-BiancoO Estado do Rio, no geral, é um Estado sem memória. Chega, às vezes, a ser ingrato com os que aqui viveram e ajudaram a progredir e projetar seu valor cultural. Não fosse o trabalho de um pequeno grupo de escritores com acesso aos jornais locais e alguns destes repórteres, muito dos homens notáveis que aqui viveram já estariam esquecidos. E quando me refiro aos notáveis, não quero falar dos que foram importantes para fortuna que souberam amealhar, graças aos bons negócios realizados, ou aos bem-sucedidos na política, que são os dois caminhos mais curtos para projeção social e a glória atreladas às homenagens póstumas consequentes. Não. 



Embora reconheça que muito dos nossos homens bem sucedidos em atividades lucrativas fossem merecedores de homenagens pelos atributos pessoais que possuíram e apesar de não fazer qualquer restrição aos políticos que se destacaram por seus méritos pessoais, não são eles, repito, o alvo dessa observação. Com o que não me conformo é com o esquecimento habitual dos prefeitos, deputados, e especialmente dos vereadores, com relação aos que se destacaram pela cultura, pela inteligência e, sobretudo, pelo amor que demonstraram ao Rio, seja transitando pela Serra, pela região dos Lagos, por Niterói ou na própria capital. Não quero citar muitos exemplos pois faltaria espaço para tanto. Porém, gostaria de chamar atenção para alguns nomes que encontrei nos escritos do meu avô, bilhetes recebidos de amigos de escrita e trabalho, fiquei bem curioso e descobri nomes hoje que praticamente não existem, se contrapondo com o que eles representaram, cada um à sua época para o nosso estado. Vou citar apenas as coisas que encontrei e que me deixaram mais acesos, pois não quero incorrer em falta quando tento apontar os amnésicos homens de bem. Encontrei nessa caixinha obras e bilhetes trocados com Lacerda Nogueira, quase esquecido Lacerda. Lembro quando era pequeno que meu avô sempre falava do amigo Lacerda. Agora, lendo os papéis que encontrei no seu antigo quarto, esse Lacerda merecia uma alantada biografia pelo muito que fez pelas letras fluminenses, com seus primorosos livros, artigos e conferências, sempre tendo em mira divulgar as preciosidades histórias do estado, principalmente no Rio e em Niterói. Num dos bilhetes, meu avô o chamava de paciente e meticuloso, quando escreveu (também achei esse livro aqui - e fico triste que quase nada está na internet) "A escola normal mais antiga do Brasil". Na época, recebeu da crítica os melhores elogios. Nesta obra, além de interessante e notável descoberta, demonstrou, também, seu cuidado em apontar os homens ilustres que preparavam os excelentes professores para cursos mais doutrinários. Outro livro dele que achei nas coisas do vô e que tem um nome gigante foi "A Força Militar do Estado e as origens da corporação. Serviços somente para paz e heroísmo para sociedade". Sobre este livro, achei uma troca de cartas entre meu avô e Levi Carneiro, que dizia ao meu avô: "Li, com real prazer o pequeno em benfeito histórico da força militar no Rio. O trabalho do nosso colega é um novo documento pela paz, um novo documento da sua operosidade profunda e do seu devotamento esclarecido às coisas do nosso Estado". Descobri nesta caixa Oliveira Viana, outro fluminense ilustre na sua época, que eu nunca havia escutado na faculdade. Grande sociólogo, assim manifestou ao meu avô com relação ao mesmo livro que meu avô indicava: "Li-o com o prazer, o proveito e a simpatia intelectual que me suscitam sempre os labores da sua inteligência e cultura.. Eu já estou de há muito reconhecer e admirar a força do seu talento; não me surpreendem mais as amizades que faz indicando os livros dos seus novos amigos da academia; não surpreendem mais as demonstrações frequentes da capacidade de trabalho de vocês e, especificamente, do seu senso de investigador. Este ensaio é tão excelente pela sua probidade histórica e pela invocação artística, que não me dispenso de dizer nesta minha impressão cheia de admiração e aplausos". E, mais adiante: "Não basta estudar a história do seu grupo, meu amigo, vocês mostram que faz-se preciso estudar as instituições; só assim será possível grande serviço às letras do nosso grupo fluminense e também às letras históricas do nosso belo País." Mas Lacerda não ficou só nesses valiosos livros, publicou mais: Bibliografia Pitorescas; Elogios de Saldanha da Gama; História Literária dos Fluminenses; A Província Fluminense; Os Fluminenses na História do Brasil. Infelizmente, pelo que sei do material do meu avô, só divulgados em comunhão às mesas dos concursos de trovas e poesias que promoviam no Clube da Literatura e na Academia Brasileira de Letras. Encontrei poucos destes resumidos em arquivos do jornal O Globo. A origem da própria da Academia Brasileira de Letras, da qual foi secretário, foi por ele divulgada em artigos que achei pela internet num Volume 10 da Revista AFL. E como pude notar, sempre apregoando, de forma brilhante, Niterói, Friburgo, o Rio, e por aí vai. Encontrei bilhetes que trocou com meu avô e Armando Gonçalves, outro grande talento, e demonstrou sua capacidade de historiador quando contestou Nilo Bruzi na questão do local do nascimento de Casimiro de Abreu, quando escreveu artigos sobre o tema em parceria com meu velho. A par disso tudo não posso deixar de incluir neste pequeno perfil do Lacerda Nogueira a sua excelente qualidade de narrador quando proporcionava, aos amigos (a melhor parte que encontrei) bilhetes escritos em mesas de bar que mandava o garçom entregar para os próprios amigos boêmios que com ele estavam sentados à mesa, na Lapa. Eram interessantes ocorrências da vida, entremeando, aqui e ali, amostras do seu talento e iniciando debates, prelecionando em todas as oportunidades. Paro por aqui. Deixo para quem tiver o engenho e a arte que me falta, a tarefa de explorar outras facetas da sua cativante personalidade. Me avisem sem algum de vocês descobrir algo! Prefiro, agora, apontar a falta de memória das cidades e dos seus vereadores do Rio, de Niterói, de Friburgo, deste Estado. Esse homem ilustre, esse escritor notável que perpetuou, principalmente em três trabalhos as histórias da Academia Brasileira de Letras, da Escola Normal mais Antiga do Brasil, e da nossa gloriosa força pública indiscutivelmente - três motivos de orgulho para qualquer escritor dessas cidades - não mereceu até hoje sequer uma sala com seu nome em qualquer destas cidades. É possível até que da biblioteca da própria Academia Brasileira de Letras conste seus livros e sua história. Mas, de resto, ingratidão, amnésia e ignorância; qualifique a gosto quem quiser; apenas lamento. Nome em ruas seria pedir muito. Nós, friburguenses, niteroienses, cariocas, já nos habituamos a denominar ruas com nome de pais desconhecidos de pessoas influentes; de filhos desconhecidos de pais importantes, de negociantes estrangeiros sem qualquer expressão e que só fizeram enriquecer nestas cidades, mas que em nada contribuíram para a coletividade, enfim, homenagens encomendadas por gente orgulhosa e bajulável. Isso tudo me fez lembrar a Bíblia, em Gênesis, 11,4 (outra obra prima da literatura), que diz: "Celebremus nomen nostrum", ou seja, "Façamos célebre nosso nome." Só que lá a narração termina com um castigo; aqui a história se repete infinitamente.

Os cuidados para o todo e sempre


Alessandro Lo-Bianco Quando eu não for mais o mesmo, tenha paciência e compreenda-me; quando derramar comida na minha roupa e eu me esquecer de como colocar a colher na boca, tenha paciência comigo e lembre das horas que ensinei você a fazer as mesmas coisas. Quando conversar comigo e eu der sinais de que estou animado para falar sobre como é viver essa fase da vida, não me interrompa e me escute. Quando estivermos reunidos e, sem querer, eu fizer as minhas necessidades, não fique com vergonha, apenas compreenda. Pense quantas vezes, quando criança, te ajudei, estando pacientemente ao teu lado esperando que terminasse o que estava fazendo. Não fique triste, amor, enojada ou impotente por me ver assim. Me dê apenas teu abraço, teu beijo, teu coração. Compreenda e me apoie como eu fiz quando você começou a viver. Da mesma maneira que te acompanhei no teu caminho, peço que me acompanhe para terminar o meu, com muito amor, para o todo e sempre.



A história dos meus avós


Alessandro Lo-Bianco | Você sempre começa uma história pensando em alguém. Poderão considerá-las românticas demais ou exageradamente sentimental, considerando meus trinta e poucos anos. Sentimentos que, contados em histórias, o bálsamo do tempo da escrita arrefece qualquer coisa. Histórias como daqueles que casam depois de haver gozado e bem, a vida de solteiro. Se conhecem e percebem a reunião, a um só tempo, da beleza de corpo e alma. Após o encontro, fazem-se amantes, em qualquer sentido que se queira dar a palavra. Constroem um lar perfeito e geram uma prole de filhos. Vivem juntos, tipo uns 50 anos; nesse período, passam bons e maus momentos, amparando-nos reciprocamente. Observam a família aumentar com a chegada dos netos. De repente, em poucos dias, esse amor é interrompido por uma doença insidiosa, inesperada, que arranca um dos braços do outro. Quem fica, sofre na alma a violência de um coice. Já estavam beirando os 100 anos. A tristeza é plenamente normal e justificável. Durante um século, embriagaram-se com o amor um do outro. Com a perda, passa a sofrer uma depressão, sem dúvida, decorrente da saudade, e esta, a queria sempre bem latente para nunca esquecer. Não permitia que médicos desbravadores da mente, com seus artifícios freudianos, expulsassem da sua memória, ou, pelo menos, amenizassem a saudade, que em verdade era a razão da sua vida atual. Na concepção que faziam do termo, os quase 100 anos, um ao lado do outro, era a única história que haviam escrito juntos, movidos pela inspiração provocada por esse único, grande e insubstituível amor. Durante todos os anos de felicidade, dedicavam-se as próprias felicidades. Destas, algumas que encontrei em cartas e bilhetes que guardavam dentro de uma caixa de sapato, preferi protegê-las com o véu da privacidade que considero inviolável, tão somente agora; mas, um dia, ainda escrevo um livro com essa história. A história dos meus avós.

sábado, 22 de abril de 2017

Ruivo desapareceu como por encanto


Alessandro Lo-BiancoNa Central do Brasil: um magrelo, de uns trinta e poucos anos, ruivo, quase albino, estava sentado em frente a lojinha de salgadinho e mini-cachorro quente. 

Ninguém sabe seu nome verdadeiro. Parece educado, mas tem cara de psicopata. O pouco tempo que fiquei ali vendo o rapaz se comunicar com o entorno, foi o suficiente para perceber que não ouvi do "débil mental" (como o cara da loja do salgadinho disse que deveria ser o nome dele) falar os palavrões comuns que saem das bocas do que se julgam sãos. Ficava esfregando a mão espalmada sobre um paletó rasgado. Dá pra ver a mancha da mão dele no paletó, somente naquela parte que ele faz o circuito tátil. Logo nos primeiros minutos notei que ele não tem mais a relação com o tempo, cuja noção, o seu cérebro doente, havia perdido. Algumas pessoas já conhecidas da Central puxaram um papo com o ruivo pra que eu observasse melhor os diálogos do dia a dia daquela pessoa. 
- E ai, ruivo, quantos anos você tem?
- 4.000 anos
- E o diabo, russo, quantos anos tem?
- Só 2.500, veio depois que eu nasci.
Um dos "amigos" do russo me desafiou:
- Ué, dá corda aí pro Russo e escuta as merdas que ele fala.
Entrei na roda e perguntei brincando:
- Russo, você sabia que o Brasil está em guerra? 
- Sei sim. 
(era pra ele responder que não)
- E o que você sabe sobre isso, russo?
- Já estou sabendo que roubaram o Vasco da Gama, que tiraram ele do país, pra depois dizerem que o maior estádio é deles e não nosso. 
(pensei; caramba!)
- Como assim, russo?
- Eu entrava sempre no estádio do Vasco. Mas o exército deles cercou, e não me deixam mais.
- Ual, cara...
(outro cara aparece e pergunta)
- Poxa Russo, alguém viu isso pra contar pra gente?
- Sim, se perguntar por aí vão te contar...
- E se você tem 4.000 anos, quantos anos tem o Vasco da Gama, Russo? (pergunto)
- É igual o Botafogo. Tudo que é preto e branco tem 3.500 anos. 
 - E o Flamengo Russo, que é preto e vermelho, tem quantos anos?
- Flamengo é filho do Diabo! (todos riram na Central com o grito dele) Ele tem 10.000 anos. Mas o Bangu, vermelho e branco, tem 10.500, porque o branco vem antes.
- E como o exército dele levou o estádio pra outro país, russo?
- Não me deixaram ver. Foi sequestro.
(o diálogo foi ficando difícil...)
O interessante foi que, depois de um tempo, a seriedade que Russo respondia acabou realizando uma conexão congruente com as pessoas que estavam ali e que, inconscientemente, começaram a perguntar de forma séria as coisas pra ele.
- Russo, e as mulheres, e as gatas? (perguntou um rapaz)
Outro disse mais sério, no seu tom de brincadeira:
- Vamos agora pegar uma morena Russo, vamos??
Pela primeira vez, notei que surgiram, invariavelmente, as primeiras perguntas sem respostas. Russo, simplesmente, silenciava. Fixava o olhar no chão e jamais respondia; e quando insistiam, batia a mão espalmada no paletó novamente e, depois de um tempo maior de insistência, levantou e saiu de perto das pessoas. Percebi que o problema de Russo pode ter sido uma mulher. Somente quando ele levantou percebi que não era pedinte. Embora sem dinheiro, as pessoas disseram que ele recusava as esmolas. Só aceitava cigarros. (os cigarros sempre me salvam com meus entrevistados)
- Russo, quer um cigarro?
- Sim, sim!
- Acendeu e puxou, assim, longas tragadas, expelindo, depois, a fumaça acumulada de cinco tragadas sem soltar o fumacê. Passou, neste momento, um carro do Corpo de Bombeiros. Descobri então que o russo adora os bombeiros.
- Olha lá! (gritou). Estudar é fácil. Ser carioca também (?), é só nascer aqui. Agora, olha lá, quero ver! 
Quando tentei falar mais alguma coisa Russo já tinha me dado as costas como se eu nem mais existisse. O recorte que eu tive foi a visão de Russo saindo da sombra do terminal e, ao entrar no âmbito claro do sol, aquele "take" em que um homem vaga desarvorado ao sabor da loucura, mas desfrutando uma felicidade interna que só é possível pela liberdade. Fatalmente, internado, num abrigo, sem essa louca liberdade de sair vagando, não estaria rindo. É louco isso. Sei que não tem nada a ver, mas foi esse quadro que fechou na minha cabeça... Me pergunto agora: não seria uma boa terapêutica então, pra certos tipos de insanos, propiciar-lhes passeios de livre escolha, de modo a evitar o confinamento habitual? Ainda que pareça esse pensamento a minha loucura, entendo que os insanos inofensivos como Russo, se convivessem livremente no nosso meio de pretensos equilibrados, mas onde há loucos bem piores do que eles, talvez se sentissem mais ajustados, ou, quem sabe, talvez absurdamente, chegassem a conclusão de que aqui todos seriam mais iguais a eles. E essa descoberta consoladora, certamente, lhes serviria de calmante. De fato, se compararmos o que se passa dentro dos hospitais psiquiátricos, com os dramas, tragédias e comédias por gentes que convencionamos chamar de normais , nas delegacias, nas varas criminais e de família, no mercado de ações, na bolsa de valores, nas rinhas de galo, nos concursos de canto de passarinhos, nos pesques e pagues do mundo, facilmente concluiremos que as grades e os muros não passam de um gasto desnecessário. Foi o que aprendi com Russo. É claro, por favor, não me refiro aqui aos "loucos" furiosos que podem sair matando todo mundo. Mas, se pararmos pra pensar, e os loucos assaltantes de bancos, os loucos políticos que matam seu eleitores na fila dos hospitais, os loucos motoristas imprudentes e outros loucos do mundo cão em que vivemos? Embora leigo no assunto, entendo que, se de algum modo, um insano tem possibilidade de pensar na própria desgraça e piorar, isso só acontecerá se ele estiver confinado. Já os doentes como Russo, que tem a liberdade de buscar seu próprio objetivo, andando livremente como eu o vi sair da "sombra do terminal pra entrar no sol" e isso foi bem simbólico naquele quadro, falando e brincando como se fosse normal com pessoas normais, enfim, distraindo a parte boa do cérebro, assim não terá tempo de olhar para dentro de si mesmo para avaliar, num átimo que seja, a imensidão da própria desgraça. Russo desapareceu como por encanto..

Eu quero, moço!


Alessandro Lo-Bianco | Entro no metrô, dou uma dormidinha e acordo com um cara berrando:
- Senhoras e senhores, primeiramente boa tarde a todos, meu nome é João da Silva, o nome mais comum do Brasil, e por isso, desde já, peço desculpas por já entrar de forma insignificante na sua vida atrapalhando a sua viagem. Mas é por um bom motivo, senhoras e senhores; hoje trago aqui, para o conforto e comodidade de vocês, (...)
Penso: Tudo isso pra dizer "esses gostosos TicTacs sabor salada de frutas". Mas...
- (...) esse retroprojetor para aumentar as polegadas do seu celular!!
Ele tira uma capa de acrílico com metal, abre, sobe uma película 3D muito maneira; ele coloca o celular atrás, já com um encaixe certo. A imagem do celular aparece com o triplo do tamanho na película 3D. Vira uma televisão de poucas polegadas, perfeito pra ver filmes, etc.
- Para crianças assistirem a Pepa, a Galinha Pintadinha, sem sujar o celular do papai de comida, assistir no conforto da casa de vocês ou em qualquer lugar, estará sempre com você. Quem me conhece (fala padrão) sabe que na loja está custando em torno de R$ 30, e eu trago aqui para vocês por apenas R$ 10.
- Ei, moço, eu quero um!
(estação Cidade Nova)
- Mais alguém senhoras e senhores? Ali. Aqui, Outro ali. Mais alguém senhoras e senhores? Ali, Aqui, Ali. Acabou gente. Mas, para a comodidade de vocês e todo conforto, eu também trago (...)
( abre uma nova mala)
- (...) Esse Kit de 3 lentes que é só prender na ponta do celular. Como vocês podem ver (ele testa no meu celular) essa aqui é olho de peixe, aumentando o ângulo de visão para sua comodidade e de toda família, garantindo que ninguém ficará de fora.
(Com a lente no meu celular, 4 Ets que estavam sentados do meu lado roncando aparecem na foto; sem a lente, apenas 2 alienígenas)
- Esta aumenta o zoom do seu celular e a terceira é pra bem perto, pois afasta um pouco pegando os detalhes. (todas testadas)
- Moço, quero isso também! Quanto é?
- Trago para a comodidade e conforto de vocês por... Antes disso quero frisar que, quem me conhece, sabe que na loja custa R$ 20 reais cada lente, e eu trago aqui por apenas R$ 10 reais também.
- Eu quero!
(estação São Cristóvão)
- Mais alguém senhoras e senhores? Ali, aqui, a senhora também, calma senhor, já vou aí. Ok, mais aqui. Acabou gente. Mas como todos vocês já me conhecem, eu também trago aqui pra quem não comprou nada uma super novidade, claro, pensando sempre no conforto da sua vida. Hoje trago também esse cabo USB universal para todos os tipos de celular, com de 3 metros de comprimento. Com ele você poderá...
(ele amarra uma ponta num vagão, abre a porta que divide as duas composições, e atravessa pro outro vagão esticando os dois metros de USB. Todos ficam chocados. O cara amarra a outra ponta longe e volta para nossa composição)
- Como vocês podem ver, senhoras e senhores, acabaram seus problemas com distância para carregar o seu celular. Quem me conhece sabe que eu só penso no conforto e bem estar de vocês, e desde já eu peço desculpas por atrapalhar a sua viagem.
- Eu quero também moço, vamos direto ao ponto, quanto é?
- Também, quem me conhece, sabe que na loja está em torno de R$ 25 reais, Mas, pensando na sua felicidade e de toda a sua família e, muito mais, pensando no seu natal, trago por apenas R$ 10 reais.
- Me dá logo, moço, você já sabia que eu iria querer. Covarde!
- Mas não acabou rapaz, para finalizar, aproveito para anunciar a todos vocês, que deixei por último o sonho de consumo de todos! Vai resolver todos os problemas relacionados a sua comunicação, seja com tv, rádio, celular, tudo, e por isso este é mais caro; está R$ 60 reais, pois quem me conhece sabe que na loja custa R$ 100.
(Estação de Triagem, fim do destino)
Ele a abre a bolsa, enfia a mão. na mala...
- Senhoras e senhores, vocês estão preparados para a surpresa final!? Se preparem, pois, a partir de hoje, vocês nunca mais irão sair de casa sem isso! Como disse, hoje trago, por último, um pouco mais caro, essa belezura de...
A porta do vagão abre; saio correndo sem olhar pra trás.
Saldo do metrô: quatro estações = RS 30 reais, com fuga de emergência

Verdades ocultas


Alessandro Lo-Bianco

A confiança é um dos sentimentos mais nobres que um ser humano pode colher e cultivar dentro de si. Confiança é a base das grandes amizades. Confiança é a raiz do entendimento, até mesmo entre seres opostos. É o elo mais forte dessa corrente que une pessoas que se completam de alguma forma. Mas a confiança é como uma taça feita do cristal mais translúcido e delicado que possa existir. Se essa taça cai e se quebra, não há mais nada no mundo que possa devolver-lhe as mesmas formas de antes. Confiança, quando vai embora, nunca mais volta. Confiança é pedra preciosa que não se atira ao mar. Do contrário, a desconfiança é uma ave agourenta que paira dia e noite sobre as cabeças dos enganados. Desconfiar cansa e faz definhar os nossas melhores qualidades. Em qualquer amizade, um convívio são, é necessário que haja credibilidade entre as pessoas. Credibilidade não é uma invenção de última hora, é uma conquista paulatina. Se não houver confiança numa amizade, não tem amizade. Sem confiança não há liberdade de gestos. Sem confiança não há entrega. Sem confiar, ninguém fica á vontade. Sem confiança, todas as portas da nossa alma se trancam, e a luz que deveria iluminar a nossa aura, se dilui numa espécie de escuridão que assombra a vida da gente. Confiança não se compra, não se vende e não se finge. Confiança é a força que nos move na direção de quem a gente gosta de estar junto. E, por mais que sejamos imperfeitos, confiar e ser confiável é muito mais do que um simples tratado social, é uma questão de caráter; e, por isso, dispensa meios-termos: ou é para sempre, ou é para nunca mais.